coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

11 de Agosto de 2011

promessas

Naquela altura, o avô do Frederico, o meu colega de carteira na escolinha da D. Aninhas, ali no Jardim de D. Fernando, e desde que deixou de ir ao bacalhau, de vez em quando, afogava o sestro na faina da faneca, com o Manel Zarolho e com o sobrinho da Laurinda, que 'inda era sua aparentada pelo lado da mãe. Ora, como já vos contei, ouvi muitas histórias contadas pelo avô do Frederico que, também já vos disse, era tido, pelas gentes do bairro de pescadores, por choné da bola. Por mor das dúvidas, dêem um desconto à história que aqui vos conto. Historieta que, segundo ele, aconteceu antes de ser embarcadiço, nos seus tempos de moço, quando andava à sardinha, na traineira do tio...
Uma madrugada, já de regresso a Viana, ali perto dos fundões de Montedor, uma valente borriscada pôs o mestre, o Quim da Abelheira e o chavalo (que era, já descobriram, o avô do Frederico), num tal aperto que eles bem cuidaram que lhes tinha chegada a santa horinha. Diz ele, o avô do Frederico, que o aperto foi de tal baita que, ao mesmo tempo, os três logo ali atabularam uma promessa a Santa Luzia, se os deixasse ver a luz da manhã em amarra segura, no cais da Senhora da Agonia. E, não fosse a promessa ser pouca, vai daí, até lá arriba, ao santuário do Sagrado Coração de Jesus, eles iriam calçados com milho dentro dos sapatos. Eia!, lembro-me, o espanto da miudagem com a coragem deles; é que, para quem habitualmente andava descalço, a promessa ganhava atrevimento de heróis...
Pelos vistos, Santa Luzia fez o milagre, o temporal aquietou-se e, num instante, eles chegaram ao porto, assustados mas inteiros. E a Santa ficou à espera.
Pouco esperou, contou o avô do Frederico. Logo no domingo seguinte, pela fresca da manhã, calçando os sapatos, insuportavelmente cheios de milho, lá foram eles estrada fora, do Campo da Agonia até ao cimo de Santa Luzia. A meio do caminho, o Quim já mal arrastava os pés; o mestre Zé, o tio do avô do Frederico, derreado, gemia e suava por quantas tinha. E, até por isso, mais repararam que o moço, lépido como passarinho na Primavera, ia fresco e contente, de mãos nos bolsos, a bordejar o caminho pela valeta, com pé leve e bailarino. Aproveitando uma das muitas pausas, que cada vez mais precisavam, sai-se o tio para o prazenteiro rapazote:
- Que dianho fizeste tu para não te doerem os pés, hã?!...
- Eu?! Nada...
- Nada?... Não te doem os chispes?...
- Não...
- Ah!, meu ranhoso - atirou-lhe o tio – tu n’um puseste milho nas botas, meu patife!...
- Ai isso é que pus, juro...
- Então co’mé que tu...
- ...mas antes cozi o milho todo, cozidinho!
E o avô do Frederico, sempre que contava a história, quando chegava a esta parte, já ria tanto que mal conseguia rematar a sua moral:a gente n’um tinha prometido que o milho era cru, ora essa!...

(o tolo faz o jantar e o esperto come-o)

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 16:24
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canho, apólida, nemetano, retratador, golipão, estupofóbico, nervino, exúbere, vilão, manés, alóctone, curumim, escarolado, querendão, rimador, tartufo, pirrónico, andarilho, filógino, falto, probo, cônscio, morigerado, achegado, revel, pegado, lisproso, gosma.

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