coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

6 de Novembro de 2011

pauliteiros
de Miranda do Douro

Na tradição muito do que foi ainda é; e assim será conquanto tenhamos memória e coração, dizia amiúde o meu velho professor e amigo Pedro Homem de Mello. Lembrei-me disso a propósito dos Pauliteiros de Miranda do Douro, que hoje trago à baila...
À baila das suas danças singulares, de um quase medievalismo sugestivo, marcadamente guerreiro, a evidenciar costumes e reminiscências das gentes desse curiosíssimo ambiente geo-psicológico das terras de Miranda do Douro.
O pauliteiro (pois que de uma dança só masculina se trata) baila com dois paulitos em punho. O tamboril rufa, o bombo marca e a gaita-de-foles dá o canto, que a mecânica dos comparsas acentua na cadência da dança. Geralmente, o grupo é formado por dezasseis dançarinos, que constituem a dança completa; oito deles, apenas, e será, então, meia dança.
Conta-nos o Abade de Baçal como era o traje antigo dos bailarinos. Vestiam triplo saio de alvo linho, bordado: as três partes eram de comprimento diferente, mas de relações iguais, para que, sobrepondo-se, o saiote de cima permitia que se vissem os bordados do de baixo. O geral adormecimento dos trajos permitiu ao bailarino dispensa dos saios, e ele passou a dançar à futri­ca ou, se o preferirem, à paisana. E, de facto, esta expressão é mais adequada, porque todos os elementos componentes do trajo do bailarino correspondem a partes da armadura e ornatos complementares dos guerreiros medievais.
Observe-se que a dança é acção de combate; em vez das espa­das há nela os paulitos. Tirado o triplo saio, fica o homem no seu trajo vulgar: calção, em mangas de camisa de linho, colete pardo com o lo­sango de pano branco a forrar as cos­tas, e estão prontos com o chapéu re­dondo, guarnecido de flores, plumas de pavão, palmitos, com lantejoulas a raiarem reflexos, e duas fitas colori­das a caírem pelas costas.
Voltariam, mais tarde, à forma primitiva. E não se consegue que os homens exibam em público os seus laços ou marcas de bailado se não estiverem inteiramente em ponto como a imagem de Alfredo Morais aqui os mos­tra. Ele aí está, o pauliteiro, no pi­toresco expressivo da sua indumentá­ria aprestada. O que sobressai nela é a brancura do triplo saio de linho com os bor­dados. O mais está notado: o colete, com os lenços, bordados de cores vi­brantes, a saírem dos bolsos; a camisa branca, sobre a qual se estende o len­ço de ombros, berrante de franjas lar­gas, seguro amplamente em volta do pescoço com o nó de grandes orelhas sobre o peito; chapéu de coloridos en­feites; nos pés botas grossas de atanado e meias zebradas de listas verme­lhas e brancas. De paulitos em riste, como cavaleiro em atitude de com­bate, o par das castanholas ou matráculas pendentes dos pulsos, espera o sinal de começar à voz do guião, hirto e majestoso na função de senhor do campo de combate; por símbolo do seu poder tem ele envergada a pe­sada mas imponente capa de honras, a honrica.
O pauliteiro. é todo colorido. O grupo dos dezasseis da dança comple­ta rende os olhos dos espectadores e entusiasma-os. O tamboril começa a ru­far; tudo se apresta de vez; os homens enfrentam-se em duas linhas parale­las; desafiam-se já para a luta; a gai­ta-de-foles resmunga; o bombo dá si­nal; e tudo se transforma, num ápice, em som e movimento; as cores mistu­ram-se, os homens saltam, volteiam, revolteiam, os paulitos batem ritmica­mente...
A imagem fica-nos nos olhos. A memória, essa, mais tarde, irá aquecer o coração.

(quando se está na dança, pois que se dance)

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 10:33
opiniões, sugestões ou contactos para o: autor

<< Página inicial

Acerca de mim

A minha fotografia
Nome: tinta permanente

canho, apólida, nemetano, retratador, golipão, estupofóbico, nervino, exúbere, vilão, manés, alóctone, curumim, escarolado, querendão, rimador, tartufo, pirrónico, andarilho, filógino, falto, probo, cônscio, morigerado, achegado, revel, pegado, lisproso, gosma.

Ver o meu perfil completo

 

 

 

 

 

 escreva na caixa a palavra que pretende pesquisar em Coisas do Arco-da-Velha
clique ENTER

 

 

 

 


 




 


2006© copyright TINTA PERMANENTE
www.tintapermanente.com
all rights reserved

contador