José Malhoa
Foi o maior cronista da rusticidade portuguesa. Retratou as gentes como nenhum outro pintor. As suas pinturas cheiram a madrugadas, à luz branca do amanhecer, ao perfume das flores e às melancolias do quebranto das tardes. Malhoa foi grande.Naquele tempo, cantado em tascas de vielas sombrias, o fado ia traçando o seu próprio caminho à mistura e em torno dos destinos do povo. Nada havia mudado, desde que nascera com identidade, há mais de dois séculos atrás. Dir-se-ia mesmo que, por sina sua, enquanto existir uma desgraça por contar ou um amor perdido, o fado perdurará.
Foi neste berço e na Mouraria que Malhoa, o pintor fino, como o alcunhavam, encontrou o rufião,
que viria a ser o expressivo modelo no Fado.Chamava-se Amâncio o faia tocador de guitarra, que manejava a navalha como poucos. Com ele, e por ele, conheceu a Adelaide, a Adelaide da Facada, por causa de um traço largo e profundo que tinha do lado esquerdo do rosto (razão pela qual Malhoa escolheu a posição dos retratados). Foram seis vinténs por sessão que Amâncio e Adelaide aceitaram e acharam compensador. Dois anos de muitos estudos e de tantos pormenores: o leque, o manjerico, as bandarilhas ou até um espelho partido com uma chinela da Adelaide.
Há quem cinja a obra do Mestre a este quadro, tão grande foi a sua celebridade, criando-lhe por isso uma auréola de consagrado intérprete da fatalidade nacional. Que existe.
Mas Malhoa está bem longe, mas mesmo muito longe disso.





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