coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

29 de Fevereiro de 2012

Amor de Perdição


Em 1861, preso na Cadeia da Relação do Porto por causa do seu envolvimento com Ana Plácido, Camilo Castelo Branco escreveu o Amor de Perdição, um dos seus mais conhecidos livros, uma novela sentimental que se converteria no expoente máximo do Romantismo Português...
È sempre tempo para reler. Ou ler.


Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tactear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.
Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não embaciou levemente o vidro.
- Está morto! - disse ele.
Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas e não orava nem chorava.

Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana:
- Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo… É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora Mariana ali para a câmara, que vai ser levado daqui defunto.
Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental, que ele tinha daquelas lágrimas dela, choradas no dia da sua demência,

e cingiu o embrulho à cintura.
Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado ao convés.
Mariana seguiu-o.
Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos húmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.

Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar.
À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.
Salvá-la!…
Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma


(as páginas 310 e 311 do manuscrito do Amor de Perdição;
episódio da morte de Simão Botelho)

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 11:04
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canho, apólida, nemetano, retratador, golipão, estupofóbico, nervino, exúbere, vilão, manés, alóctone, curumim, escarolado, querendão, rimador, tartufo, pirrónico, andarilho, filógino, falto, probo, cônscio, morigerado, achegado, revel, pegado, lisproso, gosma.

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