7 de Fevereiro de 2010

31 de Janeiro de 1891 (parte II)

(a proclamação na Câmara, frente à Praça Nova)


A revolta estava no auge. Uma descarga cerrada fez recuar a coluna quando ainda os soldados da revolta começavam a carregar as armas; varejados, os populares, fugiam, atropelavam-se, perdiam-se na balbúrdia dos gritos e do tiroteio. A Guarda Municipal, bem entrincheirada, atirava contra os rebeldes, que ripostavam já ao acaso, sem chefes, a espaços, na rua de Santo António. O capitão Leitão, ferido na testa, refugiara-se no portal de uma casa e ordenou ao corneteiro que o seguia que tocasse o cessar-fogo. Mas, na confusão geral, tal já não era possível. Os lajedos tingiam-se de vermelho, as armas que os rebeldes abandonavam, eram agora empunhadas por civis. O alferes Malheiro batia-se, de peito descoberto mas, depois, arrastado pela turba, sumiu-se para as bandas do Convento. Manuel Maria Coelho dizia a um soldado ‘Está tudo perdido; está tudo perdido desde o começo...’.
Os rebeldes recuavam para a Casa da Câmara e tomavam as janelas como improvisados abrigos nas ombreiras. Mas o combate, rápido, parecia chegar ao termo. Cada um lutava já por si, sem comando, deitando-se junto aos passeios, ao lado dos cadáveres e dos feridos, ou procurando resguardos nos vãos das portadas. Havia alguns que se afoitavam ao meio da rua ou da praça, atiravam aos soldados da Municipal e depois logo fugiam para os amparos de ocasião. Os da Guarda Municipal, em maior número, atacavam em fúria, e avançavam fazendo trincheira de tudo quando encontravam no caminho, fosse uma árvore ou mesmo os quiosques da praça. Foram quase duas horas de ímpeto, não de guerra, mas de caçadas, de lado a lado, na rua, na praça onde se estatelavam corpos e apareciam abandonados toda a sorte de objectos: chalés, guarda-chuvas, espingardas, revólveres, correame e até sapatos de mulher!...
Na Casa da Câmara, ainda restava quase uma centena de bravos resistentes, entre os quais o sargento Abílio que não calava os seus vibrantes vivas à República. Já tinham soado as dez da manhã e apesar do chefe revoltoso querer mandar arriar a bandeira verde e vermelha que flutuava ainda no topo da casa, contra ela, e em maior sanha, se batiam os da Guarda, à medida que a resistência ia diminuindo.
Os dirigentes da revolta desapareceram por entre carinhosos abrigos e auxílios que iam surgindo um pouco por todo o lado. Os cafés mantinham as portas cerradas, as patrulhas da Guarda, metidas nas suas capas de oleado, alteavam os seus alertas que apenas já rasgavam o silêncio mortal que envolveu a baixa da cidade. Ao fim do dia a praça estava deserta. Apenas entre grupos de soldados, a estátua negra de D. Pedro IV, a cavalo, empunhando a Carta, parecia quedado de espanto à imagem da Câmara esburacada por tamanha fuzilaria.
O capitão Leitão seria preso no dia seguinte, denunciado por um padre. O alferes Malheiro acabou, com ajuda amiga, por embarcar para o Brasil. Alves da Veiga chegaria a Paris. Entretanto, na Cadeia da Relação, o jornalista João Chagas, que havia sido condenado pelos seus escritos, assiste desolado, ao silêncio tormentoso que se abate sobre a cidade.
Uma ventania rija sacode as últimas esperanças e tudo se acoita e sossega sob a capa branca do nevoeiro que envolve a cidade amortalhada.
Durante umas horas, no Porto, instaurou-se a República.
O país, esse, teria de esperar mais dezanove anos...

(a revolução que no seu começo pára, perdida está)

31 de Janeiro de 2010

31 de Janeiro de 1891 (parte I)

O espesso nevoeiro dissipava-se ao lento despontar da manhã, enquanto as tropas surgiam; à luz matinal, como que docemente aloiradas.
Estavam à vontade, na Praça de D. Pedro. Os paisanos enchiam o resto da praça e como o frio apertasse ainda, ofereciam infusões, chás e cafés aos soldados, numa solicitude a querer parecer cumplicidade; davam-lhes cigarros, enchiam-nos de abraços e outros mimos. Até havia mulheres com cestas, pães e farnéis a distribuir o desjejum aos rebeldes.
Ouviu-se um toque de requinta, logo outro de repetida, e numa pressa, em linha certeira e correcta formaram os regimentos. Abriam-se, então, as janelas da Casa da Câmara e apareceram uns vultos, caudilhos e cúmplices, gente chegada aos revoltosos, mais uns quantos repórteres, boémios de todas as madrugadas, tudo em curiosidade intensa. Tinha batido nas torres a meia hora depois das sete. Um pelotão, às ordens do sargento Augusto Salgado, destaca-se da coluna e marcha para a tomada do telégrafo, enquanto uma esquadra do 10 de Infantaria, alteava um estandarte vermelho com letras verdes, que fora buscar a cada de um dos membros do Centro Democrático Federal, ali à rua de Santo André.
Santos Cardoso mostra-se à varanda. Felizardo Lima seguia-o também e o advogado António Claro, o doutor Pais Pinto, o abade de S. Nicolau, o actor Verdial, o chapeleiro Santos Silva e mais umas quantas figuras da revolta que acaudilhavam Alves da Veiga que acabava de assomar à varanda, de chapéu alto, e fazia um gesto para calar os vivas que irrompiam e, então, começava o discurso em que declarava destronada a dinastia de Bragança. Dizia que se tratava da regeneração da Pátria e declarava a República o ideal de ventura. Ênfase e emoção na palavra, enrouqueceu-lhe a garganta, sumiu-se-lhe a voz, e já Felizardo Lima, impaciente, o interrompe, zangado e aflito:
‘- Acabe lá com o discurso, homem!...’
E o chefe da revolução, que gatafunhara num envelope os nomes dos inventados membros do ‘Governo Provisório’, apenas titubeou mais algumas frases, entre os vivas, os aplausos e o delírio dos populares e logo cedeu a palavra a Verdial que, num vozeirão reboante de quem está no final da peça, atira à multidão aqueles apelidos indicados para o serviço heróico da República proclamada:
Rodrigues de Freitas, lente; Joaquim Bernardo Soares, desembargador; José Maria Correia da Silva, general de Divisão; Joaquim Azevedo e Albuquerque, lente.’
A cada nomeação ouvem-se brados apoteóticos, vivas à República. Na cimalha do Munícipio, numa haste bem alta, tremulante ao sol da manhã, içava-se a bandeira encarnada e verde. As tropas, perfiladas na Praça, apresentavam armas e o actor, voltando o sobrescrito, exagerando o seu gesto teatral, continuou a ler:
José Ventura dos Santos Reis, médico; Licínio Pinto Leite, banqueiro; António Joaquim de Morais Caldas, lente’, e o último, o que ele apontava com largos e dramáticos gestos, apregoou levantando ainda mais a voz dizendo ‘e Alves da Veiga! Via a República! Viva o Governo Provisório!'
Acenavam-se lenços, gritava-se, cantava-se; sentia-se a vitória em todos os rostos, em todos os olhos. O Sebastião, o dono do quiosque da Praça, do lado dos Clérigos, esvaziava o estabelecimento para as dádivas à soldadesca. O entusiasmo estourou quando reapareceu o sargento Salgado, com a escolta em braço de armas, cumprida a missão que lhe fora incumbida.
António Claro e Tomás Brito - que se aventuraram até à Serra do Pilar onde receberam a grata nova da impossibilidade da saída da artilharia - partiram apressadamente e num instante galgaram pela rua Passos Manuel, chegaram ao cimo da íngreme ladeira de Santo António e penetraram no quadrado da Municipal. Cavalaria e Infantaria, reluzentes de armas e metais, estavam ali, prontos, firmes e voltavam-se para os Clérigos, Batalha, Santa Catarina e Santo Ildefonso. Junto do Hotel Portuense, à esquina, estava o major Graça, a cavalo, sereno e esfíngico. Foram avançando, acercaram-se, falaram-lhe e pediram-lhe para os acompanhar e ele só lhes respondeu que só recebia ordens do quartel-general. Apenas lhe arrancaram esta frase e deixaram-no, indo de corrida para a rua Duque de Bragança, em demanda do que haviam comprometido com Correia da Silva. Encontraram-no à porta da escada, fardado de general de Engenharia. Tinha aguardado os delegados dos corpos da revolução e ao ver ali dois civis, o militar explodiu, soltou a sua cólera, indignando-se por o terem deixado ali, sem notícias e sem a consideração de lhe enviarem oficiais, como se tinha combinado.
Que partisse, que fosse com eles, talvez a sua presença salvasse o Movimento’, solicitavam-lhe.
Que não, que já era impossível, que tinham chegado muito tarde’, respondeu-lhes desesperançado.
A corroborar as suas afirmações ouviu-se um tiroteio rápido, estalidos distantes, depois mais vivos, mais repetidos, mais fortes.
A Municipal está a combater’, dizia ele, e num gesto desolado, encolheu os ombros agoirando a derrota.
As tropas, ladeadas pelo povo, tinham marchado ao som da Portuguesa. Cantavam-na como se fosse um hino religioso. A Guarda Fiscal ia à frente, seguiam-se os Caçadores, alguns poucos soldados do 18 e logo a seguir uns tantos do 10. De súbito um toque de corneta, vindo de cima. Mandava fazer alto e meia volta imediatamente. Caiu-se numa surpresa total: ordenava-se-lhes a retirada e lá no alto da Casa da Câmara, o estandarte desfraldado - que se enxergava de longe, visto da Relação pelos presos e sendo para João Chagas uma nervosa esperança - parecia marcar o triunfo. Ao mesmo tempo notou-se que a Guarda apontava. Levantaram-se ainda mais alto os vivas à República e ao exército e um novo toque subiu, embora sem dominar a barafunda entusiástica. O capitão Leitão, ao escutar dois tiros de revólver disparados entre a turba, saltou para a frente das tropas e pretendeu obrigá-las a avançar, sem moverem as armas. Porém, já dois guardas-fiscais lhes apontavam as suas e ele gritava que os do lado oposto não lhes fariam mal. Levantara os braços, em sinal de paz, a avisar aqueles que lá em cima aprontavam as armas, levando-as à cara. Prosseguia a música, as frases da Portuguesa ressoavam por todo o lado:
Contra os canhões,
Marchar! Marchar!...

(conclui com a parte II)