coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

28 de Maio de 2012

ainda... o Marquês de Pombal

Já no exercício pleno das suas funções régias (o rei limitava-se a assinar tudo quanto o Marquês lhe punha à frente), acumuladas a pasta dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, juntou-lhes a da Administração, na sequência do terramoto de 1755. O seu poder, tido e de facto, desmesurado, criou-lhe enormes e fortes inimizades, e ódios. A nobreza e o clero eram, sobretudo, duas pedras no seu sapato acetinado de pele de corça. O atentado ao rei (coisa relacionada com dores de alcova) serviu-lhe na perfeição para desferir um duro golpe à nobreza, aniquilando por completo, e com requintada encenação, os Távoras. Mas faltava o outro lado: a Igreja. O Papa Clemente XIV dá-lhe a oportunidade, que aproveita sabiamente, passando para os leigos os poderes censórios do Santo Ofício. Daí à expulsão dos Jesuítas foi um fósforo. Que ardeu completamente quando conseguiu satisfazer o seu mais secreto e fervoroso desejo: apanhar e meter na fogueira o padre Malagrida, tido como mentor espiritual dos Távoras. Mesmo que a condenação tivesse sido pelo 'crime' de ter dito que o terramoto havia sido um castigo divino. Por ironia, Malagrida, queimado vivo em 1761, foi a derradeira vítima da Inquisição em Portugal.
Mas, a propósito desta figura tão controversa quanto marcante da História portuguesa, aqui vos deixo, procurando beliscar o menos possível na transcrição, o decreto com que, o então Conde de Oeiras, baniu os Jesuítas de Portugal:
'Dom Joseph, por graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquem e alem-mar, em Africa, Senhor da Guiné e da Conquista, navegação e comercio da Ethiopía, Arabia, Persia e da India: Faço saber que declaro os padres da Companhia de Jesus corrompidos, deploravelmente alienados do seu santo instituto e manifestamente indispostos com tantos, tam abominaveis, tão inveterados, tam incorrigiveis vícios para voltarem à observância d’elle, por notorio rebeldes, traidores e adversarios e aggressores, que teem sido e são actualmente contra a minha Real pessoa e estados, contra a paz publica dos meus reinos e domínios e contra o bem comum dos meus fieis vassalos; Ordenando que como tais sejam tidos, havidos e reputados; E os hei desde logo, em effeito d’esta presente lei, por desnaturalizados, proscriptos e exterminados; Mandando que effectivamente sejam expulsos dos meus reinos e dominios para nelles mais não poderem entrar. E estabelecendo debaixo de pena de morte natural e irremessível e de confiscação de todos os bens para o meu fisco e real camara que nenhuma pessoa de qualquer estado e condição que seja, dê nos meus reinos e dominios entrada aos sobreditos padres, ou qualquer d’elles ou que com elles, junta ou separadamente, tenha qualquer correspondencia verbal ou por escripto, ainda que hajam sahido da referida sociedade ou que sejam recebidos ou professem em quaesquer outras provincias de fóra dos meus reinos, a menos que as pessoas que os admittirem ou praticarem não tenham para isso especial licença minha; Para acautelar os casos de transgressão insidiosa ou clandestina, haverá devassa aberta confiada a todos os ministros civis ou criminaes sem limitação de tempo nem restricção de testemunhas. Inquerito de terstemunhas de seis em seis mezes pelo menos, acerca da fiel execução d’esta lei e informação ao juiz de inconfidencia. A nenhum dos magistrados se poderão dar por correntes as suas residencias emquanto não tiverem certidão de haver cumprido este preceito. Para todos os tribunaes e corporações do estado, afim de que o façam cumprir e guardar como n’elle se contem sem dadiva ou embargo algum, não obstante quaesquer leis, regimentos ou alvarás, disposições ou estilos contrários que tos hei por derrogados, como se d’elles ficasse individual e expressa menção para este effeito, somente ficando aliás sempre em vigor. Para que seja publica na chancellaria e d’ella se remetam copias a todos os tribunaes, cabeças de comarca e villas do reino. Paço, 3 de Setembro de 1759. – Rei. – Conde d’Oeiras.'

(a gravura é uma caricatura feita por Rafael Bordalo Pinheiro, em 1882, no centenário da morte de Pombal, e publicada no jornal 'O António Maria')

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 16:42
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21 de Maio de 2012

a Quinta do Desterro

D. Maria, a rainha, acabara-lhe ingloriamente com o seu poderio. Desterrado para Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello lidava mal com a mesquinhez da sua casa. Apesar do primeiro Inverno passado, de já ter abrandado o rigor do tempo, as salas ainda mostravam desconforto. Ele escrevia, escrevia sempre. Vibrava, como sempre, em desafrontas. Di-se-ia alheio às antigas determinações, a tudo quanto se ordenara e fizera durante o reinado do Reformador (que ironia...) porque, do alto do seu poder, nunca considerava os sofrimentos, pois julgava-os sempre justos. Ele tinha que realizar uma obra. O resto não contava: sempre conseguia aniquilar os obstáculos, os embaraços e os escolhos.
Por isso sentia-se esmagado, precisava de mais vasto horizonte e de ar; o seu peito largo não se satisfazia naquela restrição e, por isso, vezes sem conta atravessava a sua quinta de Santorum ver as hortas que mandava plantar.
As verduras nasciam para encanto dos olhos e consolo dos estômagos. É verdade: apareciam na mesa do velho estadista, mas também nos caldos dos pobres em redor. Cantava a água nas caldeiras, uma fonte brotava a pouca distância da casa rural onde se guardavam as alfaias e habitava o caseiro, que, uma ou outra ocasião, o marquês procurava e arrastava para o curso dos seus passeios.
Do palácio, a estradinha ínvia conduzia até Gramela, onde ele instalara uma fábrica de chapéus, o que poucos no Paço disso sabiam. Os campos, dali até Santorum, planícies extensas e verdejantes, aqui e além desenhavam tufos de choupos como que a abafar o rumor calmo das águas do Arunca.
O ministro de D. José, durante os seus vinte e sete anos de poder, nunca tivera tempo para visitar a sua vila; deixara o seu palácio sem cuidado, entregando Santorum aos madraços dos rendeiros. Agora, no desvio agudo da vida queria tirar da propriedade rústica o proveito e ganhar nas suas sobras a saúde que a vida de Lisboa lhe arruinara lenta e implacavelmente. Ouvia as mulheres e os homens, pelos caminhos da quinta, amenizando o trato duro e frio que lhe desenhou o rosto durante toda a sua vida.
Lá no fundo da casa, na capelinha, uma imagem vetusta presidia aos fiéis que respeitosamente deixavam, à frente, solitária, a silhueta do velho Marquês. Não escassas eram as vezes que lá o deixavam a sós, no final das novenas. Ou, outrossim, lhe divisavam a silhueta ao fundo da azinhaga, para os lados da estrada. Pouco a pouco, as gentes dali habituaram-se à presença daquele homem, vencido, mas ainda de passada firme. Talvez por isso, com o tempo, aquela imensa propriedade começou a ser conhecida por a Quinta do Desterro.
Cinco anos depois de chegar a Santorum, com 82 anos, a 11 de Maio de 1782, morreu o Marquês de Pombal.
...
Da quinta, sobram lendas. Poucas, já que raros são os que, por aqueles lados, sabem que ali viveu aquele que diziam 'ter pelos no coração'. No lugar do palácio está agora esta bem cuidada casa senhorial.
Quando por ali andei, por estes dias, não me pareceu difícil imaginar, pelas vereias, o caminhar brando e frouxo da sombra do velho caudilho... 

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canho, apólida, nemetano, retratador, golipão, estupofóbico, nervino, exúbere, vilão, manés, alóctone, curumim, escarolado, querendão, rimador, tartufo, pirrónico, andarilho, filógino, falto, probo, cônscio, morigerado, achegado, revel, pegado, lisproso, gosma.

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