27 de Novembro de 2009

1127 dias...

(Minhota, de José Malhoa)

Foi com um retrato mais ou menos desfocado que o Coisas do Arco-da-Velha começou, neste dia, há três anos atrás. Não é meu propósito qualquer balanço, conjecturar mais substância no haver e pouca importância ajustar ao deve, coisas essas quase sempre a reboque de mandingas inconfessadas...

Basta-me o agrado na feitura e os fios laçados de palavras amigas que lhe vão tramando teias de bem-querer e amizade. É verdade que, ora aqui ou ali, tempo houve em que ajuntei palavras de despedida e achava por bem que assim fosse. Mas não foi. Talvez por, ainda, achar por bem que assim (devia que) fosse.

Portanto, será continuando a recorrer aos meios mais diversos, às vezes bem estrambóticos, que aqui se vai dando estampa a curiosidades, memórias, ou até mesmo saberes, palavras, factos e coisas, que pelo tempo, foram deixando lembranças ou esquecimentos. As coisas do Arco-da-Velha...

Cabe lembrar, a propósito, que especialmente no caso das palavras, foi o povo que criou a Língua, que a animou, que lhe deu vida, ao mesmo tempo que, vivendo-a, a deturpava, enriquecia, aviltava e exaltava. Creio que, neste cadinho, se forjam os adágios, rifões, anexins, ditos, sentenças ou apenas palavras nascidas ao calhas do falar, ou seja, no caldo da cultura oral onde não há a rigidez a que tanto se apegam os eruditos, presos à forma e à fixação das regras, seja na escrita ou na leitura. Repare-se que o poeta popular nunca diz o verso rigorosamente do mesmo molde; cada vez é um novo acto, uma nova enunciação da poesia que representa, para ele, uma atitude criativa e empreendedora da circunstância e do momento. É esta a mesma verdade para o rifoneiro que, quase sempre de origem anónima, colectiva e popular, acaba carregando mutações constantes do uso franco e livre na boca do povo. Sabemos bem que, não raras vezes, alguns sapientes cultores, misturam um bocejo com esta ou aquela locução que a populaça criou e consagrou, e que, mesmo sabendo-lhe o sentido, acham que tudo o mais é perda de tempo, arrazoado sem nexo ou valor, e, bem pior, grave lesão aos preceitos estabelecidos das coisas do bem dizer e falar. Na freima da sua erudição bacoca esquecem que ‘o mister de recordar o passado, é uma espécie de magistratura moral, uma espécie de sacerdócio. Exercitem-no os que podem e sabem porque, não o fazer, é um crime’, escreveu Herculano.

Enquanto vão arranjando sarna e mão que a coce com Acordos sem ponta nem nó (digam-me, deste último, se há alguém, capaz de explicar por que, agora, deverá ser hifenizado cor-de-rosa ou água-de-colónia e a cor de laranja ou o fim de semana não lhes assiste tal direito tão jeitoso e traçadinho... Sabem? Não?!... Também eu!...).

Bem ficaria eu de candeias às avessas se por artes de berliques e berloques, alguns desses doutos de patavinices, armados em carapaus de corrida, se aguentassem no balanço a explicar tudo isto. Não lhes pagaria tuta e meia, com certeza...

Agradecido que vos sou, a todos.

Vou ali e já venho.


(Arco-da-Velha pela manhã,
mal do pobre que não tem pão e da ovelha que não tem lã)

19 de Novembro de 2009

Dos Santos a Santo André, um mês é...

Novembro é, talvez, o mais profícuo e também o mais heterogéneo mês da tradição popular. Começa no culto dos Santos e na memória dos familiares e amigos já desaparecidos para, ainda mal vencida a primeira dezena dos dias, se deixar envolver nos folguedos vindos dos rituais pagãos, agora evocados em honra do bispo que é S. Martinho (Pelo S. Martinho é lume, castanhas e vinho), e apronta-se a jeito para terminar o mês, de sovelão na mão, a modos de imolar o 'russo' no matadelo, ou não fora que no Santo André, faz o porco cu..é, cu...é.

Já quase perdida no tempo (ou na modernidade, como se queira...), pelos Santos e pelos Fieis, havia o hábito de repartir pão e outros alimentos pelos mais necessitados e, pelos vizinhos e amigos, distribuir regalos da copa e da frasca familiares: os bolinholos ou bolinhós, uma espécie de pão doce, cobertos de geleia ou massa de açúcar. Mais pelo interior, em algumas vilas e aldeias, nas igrejas, as confrarias e as congregações distribuíam os santoros, bolos de forma alongada, de pão e azeite, benzidos nas missas da matina. Com muito sumida revivescência, subsiste aqui e além, nalgumas terriolas das Beira Alta, o pão-por-Deus ou o santorum. Já poucos se lembram, do Alentejo ao Algarve, pelo dia dos Santos e dos Finados, ver a garotice, munidos de saquitéis de chita barata, percorrer o casario, as quintarolas ou os solares ricaços, pedinchando de porta em porta, arengando em coro:


Ó tia, pão-por-Deus!

Se o tem e o quiser dar,

Deus lhe acrescente
a massa do alguidar;

Se o tem e nã quer dar,
os ratos le comam
a massa do alguidar!


Quase sempre havia uma fatia de pão barrada com mel, uns figos passados, castanhas, peros ou nozes, mesmo que distribuídos à mingua. Mais acima, no litoral das Beiras, por esse tempo, a pedinchice era feita com uma outra lamúria em versos obscuros e estropiados:


Pão-por-Deus à mangarola
encham-me o saco e vou-me embora!


Se alguém ousasse recusar oferenda, não ficava sem ouvir o protesto com prenúncios de malefício:


O gorgulho, gorgulhote
le dê no pote
e le não deixe farelo
nem farelote!


Ainda pelo Alentejo, a criançada empregava, para o mesmo fim, outra cantilena assim:


Senhora, dê-nos os Santos,

por alma dos seus defuntos,

que lá estão enterrados

aos pés da bela Cruz...

Para sempre, Amém Jesus!


Curioso era o costume coimbrão. A garotada improvisava, com duas varolas e uma tábua, uma rudimentar padiola. Sobre ela, à laia de santo em procissão, instalavam uma avantajada abóbora porqueira, que previamente desmedulavam e colocavam-lhe uma lanterna no interior oco. Para completar o efeito, cavavam-lhe dois grandes orifícios que tapavam com papel acetinado vermelhusco, simulando as órbitas vazias de uma caveira (o Halloween seria importado muitos anos depois, esqueçam!...). Brincalhões e contentes como pardejos, saiam em séquito, pelo cair da noite, percorrendo porta a porta, sempre na expectativa de que lhes distribuíssem guloseimas, iam cantarolando uma toada parecida com a que se trauteava pelo Alentejo. A diferença era na resposta se os intentos não fossem correspondidos. Aí a serrazinada era um tudo-nada semelhante com as Janeiradas, do ciclo natalício:


Aqui cheira a alho,

mora aqui algum dialho;

aqui cheira a louro,

mora aqui algum besouro;

aqui cheira a breu,

mora aqui algum judeu;

aqui cheira a unto,

mora aqui algum defunto.


A seguir, poucos dias passados, chega o S. Martinho, dia em que se fura o pipinho e que se vai à adega e prova o vinho. É o pretexto para verrumar o tampo do vasilhame - o espicho, e para a merendola festiva: o magusto. Os festins estendem-se, um pouco por todo o lado, à volta das castanhas e dos garrafões de água-pé. Nalgumas aldeias da Beira Baixa era tradição fazerem, em vez de um, sete magustos, preferindo para a folia o dia de S. Simão (28 de Outubro), como se dizia então que pelo S. Simão, quem não assa um magusto não é bom cristão. Por vezes, nesse dia, o tempo apresentava-se mau e desabrido. Diziam, então, os beirões que era S. Simão a varejar os soitos. Mais para cima, lá para os lados do Barroso, se pela folia do S. Martinho se achasse mulher prenhe, é certo que ela iria rebuscar, entre as castanhas falhudas, os funchões e as folecras para serem lançadas ao lume depois de bem molhadas com saliva. Se bufassem, era rapariga, mas se entumecessem e estoirassem, então era mais do que certo que viria aí um mocetão!...

E, na próxima, tratamos do Santo André. Ou do 'russo', está bom de ver...


(a castanha tem má manha: vai com quem a apanha)