10 de Fevereiro de 2010

o quiosque da Praça Nova....

A propósito destes dois, abaixo, últimos escritos sobre a gorada revolução de 31 de Janeiro de 1891, a nossa amiga APC perguntava (...)mas esse tal de quiosque era o da Praça da Liberdade? Se sim, ainda existe, certo?(...).
Era, sim senhora, o quiosque da então chamada Praça Nova, hoje dita Praça da Liberdade. Exisitir, exisitir, isso é que não! Nem a Praça (a Nova) existe!...
A Casa da Câmara foi demolida, algumas ruas e ruelas adjacentes também, para que nascesse a Avenida dos Aliados, tal qual como hoje se conhece (é verdade que a avenida era para ser bem mais comprida, mas um desaguisado, nunca resolvido, com o Bispo por causa da Igreja da Trindade, acabou com a implantação da Câmara mesmo à frente da Igreja da Trindade. Até hoje...).
Mas voltando à Praça Nova, e ao quiosque (que se pode ver, embora só metade, à direita da fotografia, mesmo em frente à estátua de D. Pedro IV). Era seu proprietário uma figura curiosa e bem conhecida. Chamava-se Sebastião e, na efervescência política da altura, entendia por melhor mostrar-se correligionário de todos os seus fregueses. O quiosque, como tod
os os outros que havia na cidade (e que, um a um, foram todos destruídos!...) vendia toda a espécie de quinquilharia e, naturalmente, jornais. E, está bom de ver, jornais de todos os partidos (que eram bem mais dos que por agora existem...). Então o velho Sebastião (mais tarde, desta forma, aqui ao lado, assim caricaturado, num desses pasquins de ocasião), de barrete judaico na cabeça calva, perinha branca como era hábito aos filhos de Israel, sempre que alguém procurava um jornal, fosse ele de que partido ou cor fosse, respondia invariavelmente, com um sorriso amável e um afectuoso cumprimento: 'Pronto! Cá está o nosso jornalzinho para o ilustre correligionário. Tenha um bom dia!'. Dobrava, metia o dinheiro ao bolso e agradecia.
Ou seja, o Sebastião, era correligionário de todos os seus clientes!
Morreu pelos anos vinte. Deitaram o quiosque ao lixo e, mais ou menos no mesmo sítio, veio a nascer uma casota que vendia bilhetes para o boxe, no Palácio de Cristal...
Depois, muito tempo depois, a Praça Nova que já era Praça da Liberdade, junto com a Avenida dos Aliados, ficaram cinzentas... como as ratazanas.

(na política, uns são alpinistas, outros degraus)

7 de Fevereiro de 2010

31 de Janeiro de 1891 (parte II)

(a proclamação na Câmara, frente à Praça Nova)


A revolta estava no auge. Uma descarga cerrada fez recuar a coluna quando ainda os soldados da revolta começavam a carregar as armas; varejados, os populares, fugiam, atropelavam-se, perdiam-se na balbúrdia dos gritos e do tiroteio. A Guarda Municipal, bem entrincheirada, atirava contra os rebeldes, que ripostavam já ao acaso, sem chefes, a espaços, na rua de Santo António. O capitão Leitão, ferido na testa, refugiara-se no portal de uma casa e ordenou ao corneteiro que o seguia que tocasse o cessar-fogo. Mas, na confusão geral, tal já não era possível. Os lajedos tingiam-se de vermelho, as armas que os rebeldes abandonavam, eram agora empunhadas por civis. O alferes Malheiro batia-se, de peito descoberto mas, depois, arrastado pela turba, sumiu-se para as bandas do Convento. Manuel Maria Coelho dizia a um soldado ‘Está tudo perdido; está tudo perdido desde o começo...’.
Os rebeldes recuavam para a Casa da Câmara e tomavam as janelas como improvisados abrigos nas ombreiras. Mas o combate, rápido, parecia chegar ao termo. Cada um lutava já por si, sem comando, deitando-se junto aos passeios, ao lado dos cadáveres e dos feridos, ou procurando resguardos nos vãos das portadas. Havia alguns que se afoitavam ao meio da rua ou da praça, atiravam aos soldados da Municipal e depois logo fugiam para os amparos de ocasião. Os da Guarda Municipal, em maior número, atacavam em fúria, e avançavam fazendo trincheira de tudo quando encontravam no caminho, fosse uma árvore ou mesmo os quiosques da praça. Foram quase duas horas de ímpeto, não de guerra, mas de caçadas, de lado a lado, na rua, na praça onde se estatelavam corpos e apareciam abandonados toda a sorte de objectos: chalés, guarda-chuvas, espingardas, revólveres, correame e até sapatos de mulher!...
Na Casa da Câmara, ainda restava quase uma centena de bravos resistentes, entre os quais o sargento Abílio que não calava os seus vibrantes vivas à República. Já tinham soado as dez da manhã e apesar do chefe revoltoso querer mandar arriar a bandeira verde e vermelha que flutuava ainda no topo da casa, contra ela, e em maior sanha, se batiam os da Guarda, à medida que a resistência ia diminuindo.
Os dirigentes da revolta desapareceram por entre carinhosos abrigos e auxílios que iam surgindo um pouco por todo o lado. Os cafés mantinham as portas cerradas, as patrulhas da Guarda, metidas nas suas capas de oleado, alteavam os seus alertas que apenas já rasgavam o silêncio mortal que envolveu a baixa da cidade. Ao fim do dia a praça estava deserta. Apenas entre grupos de soldados, a estátua negra de D. Pedro IV, a cavalo, empunhando a Carta, parecia quedado de espanto à imagem da Câmara esburacada por tamanha fuzilaria.
O capitão Leitão seria preso no dia seguinte, denunciado por um padre. O alferes Malheiro acabou, com ajuda amiga, por embarcar para o Brasil. Alves da Veiga chegaria a Paris. Entretanto, na Cadeia da Relação, o jornalista João Chagas, que havia sido condenado pelos seus escritos, assiste desolado, ao silêncio tormentoso que se abate sobre a cidade.
Uma ventania rija sacode as últimas esperanças e tudo se acoita e sossega sob a capa branca do nevoeiro que envolve a cidade amortalhada.
Durante umas horas, no Porto, instaurou-se a República.
O país, esse, teria de esperar mais dezanove anos...

(a revolução que no seu começo pára, perdida está)