coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

19 de Janeiro de 2012

Leis sobre a crendice popular - I
(dois exemplos do séc.XIV e do séc. XVII)

A superstição e a crendice popular é inata ao Homem e a todas e quaisquer que sejam as suas formas sociais e, mesmo, evolucionais (tenha isto o significado que tiver). Como com todas as outras coisas da sociedade humana, também estas se foram modificando ao longo dos séculos, adaptando e acomodando às modas, às descobertas e, sobretudo, às necessidades (inconfessadas) que as gentes iam sentindo face às agruras, dúvidas e medos que, em cada ocasião, lhes iam atormentando o espírito.
Vem isto a propósito de vos trazer aqui parte de um documento, talvez dos mais antigos, que refere expressamente a crendeirice do povo: uma postura da Câmara de Lisboa de... 1385(1).

(...) os sobreditos estabelecem e ordenam, que daqui em diante nesta cidade, nem em seu termo, nenhuma pessoa não use, nem obre de feitiços, nem de chamar os diabos, nem de desencantações, nem obre de carantulas, nem de jeitos, nem de sonhos, nem de encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre de adivinhamentos, nem outro sim ponha nem meça cinta, nem escante olhado em ninguém, nem lance água por joeira (...)
(...) Outro sim estabelecem que daqui em diante nesta cidade e em seu termo não se cantem janeiras, nem maias, nem a outro nenhum mês do ano, nem se lance cal às portas sob título de Janeiro, nem se furtem águas, nem se lancem sortes. Porque o carpir e depenar sobre os finados é costume que descende dos gentios, e é uma espécie de idolatria, e é contra os mandamentos de Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que daqui em diante nesta cidade, nenhum homem ou mulher, não se carpa, nem depene, nem brade sobre algum finado, nem por ele, ainda que seja pai, mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem nojo, não tolhendo a qualquer que não traga seu dó, e chore se quiser (...)


(1) - Infelizmente não se sabe o mês e o dia desta postura. Presume-se que seja próximo do final do ano; isto porque, nesse mesmo ano, a 6 de Abril, as Cortes de Coimbra aclamavam o Mestre de Aviz, como D. João I, rei de Portugal e, a 14 de Agosto, acontecia Aljubarrota.

Quase todas estas disposições respeitam a crenças muito vulgares na época e que, naturalmente, já não existem. Embora, curiosamente, as janeiras e as maias, mesmo que de modo alterado e adaptado, tenham subsistido até aos nossos dias. (provavelmente ainda muita gente se lembra dos maios pequeninos passearem pelas ruas cobertas de flores, as rodas floridas nas portas ou, tão simplesmente, as flores das maias penduradas em portas, janelas e sacadas; as janeiras, essas, perduram, de variada e colorida forma, do Minho ao Algarve).

.....................................................................(continua)

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12 de Janeiro de 2012

Pedro Afonso

O rei D. Dinis, aquele de quem a voz popular diz fez tudo quanto quis (o que não é tão verdadeiro assim...) governou durante quase 50 anos. O Lavrador, que porventura nunca viu uma enxada, deve o cognome a um pinhal que, embora tenha sido ele a ordenar a sua plantação, foi idealizado pelo genovês Pessanha que, na primeira década do século XIV, veio para Portugal incumbido de criar a Marinha. Do rei, e do seu reinado, os historiadores, principalmente o do Estado Novo, do que escreveram, muita fantasia se lhe acrescentou e, como se não fosse pouco, alguns mistérios ficaram por esclarecer.
Por acaso, ou não, Odivelas, parece ter sido o epicentro dos casos menos esclarecidos: exactamente o sítio onde ele, o rei, acabaria sepultado. Uma excepção, e essa apenas curiosa...
Dos amores com D. Grácia Fróis de Ribeira, jovem de muita formosura, filha do fidalgo João Fróis, nasceria (1282) Pedro Afonso, que viria a ser conde de Barcelos. Este conde, é, provavelmente, o menos conhecido e o mais injustamente obscuro autor da cultura medieval portuguesa. Apenas se conhece o seu Livro de Linhagens, algumas poesias esparsas e outras no seu livro Cantigas, dedicado ao rei de Castela (ainda, em 1950, estudiosos espanhóis concluíram ser dele a Crónica de 1344, sobre o reino castelhano). O conde D. Pedro, depois de uma vida atribulada entre Castela e Portugal, sanados os litígios com D. Afonso IV, seu irmão, acabaria por falecer, aos 71 anos, no seu Paço de Lalim (Lamego).
Se, até aqui, pouca ou nenhuma curiosidade se pode achar, a verdade é que, em 1653, três séculos após a sua morte, Frei Francisco Brandão, ao escrever na Monarquia Lusitana as referências ao reinado do Lavrador e, falando do seu filho bastardo, Pedro Afonso, relatava:
‘Foi havido pelo homem de mais galhardas disposições que então havia em Hespanha, por ser quasi agigantado e tão proporcionado, que bem encobria a demasiada grandeza do corpo. No ano de 1643 mudaram os religiosos de S. João de Tarouca, a sepultura deste conde da parte direita do cruzeiro para a nave direita da egreja, e abrindo-a por curiosidade, acharam a armação dos ossos toda inteira: mediram o corpo com uma cana e constou ter de comprido quase onze palmos e meio; a sepultura não prometia menos corpo porque é grande em demasia. Respondia a grossura e mais compaginação a esta grandeza: na meia cabeça da parte direita tinha meio barrete de cetim amarello tostado, forrado a tafetá da mesma côr, tudo mui são ainda, e o cabello desta mesma parte crescido com grande melena, e sobremaneira ruivo: calçava esporas doiradas, e dentro dellas (?) estavam as solas do calçado inteiras de ponta aguda, como então se costumava. Os que estiveram presentes m’o certificaram com mui muideza’.

Este era Pedro Afonso, conde de Barcelos, primogénito bastardo do rei D. Dinis.
Uma altura de quase dois metros e meio de que (muito) pouco se sabe...

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