coisas do arco-da-velha

(quando a velha põe o arco à chuva, depressa enxuga)

colectânea de frases, brocardos, ditos, locuções, florilégios, parémias, motejos, historíolas, prolóquios, tonadilhas, sentenças, idiotismos, mandingas, imagens, photographias, sonoridades, traslados e mais afins, a propósito aqui trazidos, de livros, almanaques, jornais, revistas, pasquins, folhas ou outros publicantes e adaptados com a intenção de divulgar e preservar o espírito, o saber e mais as landainices e lérias populares

 

4 de Maio de 2012

Barão de Forrester


No próximo dia 12 faz 151 anos (foi em 1861) que, com quase 52 anos, morreu afogado no rio Douro, no lugar do Cachão da Valeira, o Barão de Forrester, José James Forrester de seu nome, escocês, escritor, artista e viticultor, que tanto se notabilizou na expansão e propaganda do Douro e dos seus vinhos.
A sua morte, que muito impressionou o país, foi descrita assim, magistralmente, por Camilo Castelo Branco:
(...) No dia 12, um alegre domingo, saíram todos, o Barão de Forrester e vários amigos, do Vesúsio, na intenção de jantarem na Régua. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do Cachão, formidável sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu um golpe e mergulhou no declive da catadupa. O Barão sofre uma pancada do mastro quando se lança à corrente, nadando. Ainda fez algum esforço para apegar à margem; mas, fatigado de bracejar no teso da corrente, ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos na agonia, e desapareceu.(...)
(gravura da época)
Este desastre, pelas circunstâncias em que se deu (Dona Antónia Ferreirinha, que viajava com ele, e mais outras senhoras, salvaram-se graças ao fole das suas saias) e ainda pelo facto de apenas ter vitimado o Barão de Forrester, foi durante muito tempo motivo de estranhas e singulares versões, tanto mais que o seu cadáver nunca apareceu (dizia-se, na altura, que era vulgar o Barão carregar muitas moedas de ouro no forro de cabedal do seu largo cinto). Admitiram-se ou criaram-se lendas e fantasias à volta do sinistro Cachão do Douro e, no caso, chegou-se a conjecturar um crime. De tudo, porém, nada se averiguou e nada se provou...
Forrester, há muito radicado em Portugal, no Douro e na cidade do Porto, onde possuía uma riquíssima moradia para as bandas da Ramada Alta, proprietário, produtor e comerciante, foi uma destacada figura da cidade do Porto, naquela época. Dedicou o seu tempo e saber procurando por todas as formas fazer acreditar e qualificar o Vinho do Porto. Entre 1843 e 1860 publicou vários trabalhos, escrevendo-os e ilustrando-os com excelentes desenhos, sobre o cultivo e a produção dos vinhos durienses. Os seus trabalhos A crise comercial explica-se e A verdadeira causa da crise comercial do Porto, contribuíram grandemente para debelar o pânico e estimular as energias das gentes do Douro seriamente abaladas com o flagelo que devastou grande parte dos vinhedos, em 1859. Ficaram famosos os seus mapas e notas no O pais vinhateiro do Alto-Douro, publicado em Português e Inglês e, mais tarde, reeditado pela Câmara dos Comuns, em Londres.
Na sua casa apalaçada da Ramada Alta, mesmo depois de desaparecido, continuaram as famosas reuniões que, antes, ele organizava. A sua memória serviria, nessa altura, para oportunismos e negócios pouco claros, de tal modo que, em 1884, Camilo publicou algumas tremendas críticas aos saraus na casa do Barão, o que provocou um ruidoso escândalo com a forma com que ele tratava as gentes da Assembleia Portuense, os do Palheiro como os qualificou, que se serviam da casa do falecido para provarem e abusarem das libações do magnifico vinho, que tanto o Barão de Forrester procurou dignificar.  

(o vinho é inimigo do bêbado e amigo do sábio)

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 11:17
opiniões, sugestões ou contactos para o: autor

5 de Abril de 2012

Reitoria da Universidade do Porto

O edifício da actual Reitoria da Universidade do Porto, na praça Parada Leitão (vulgarmente conhecida pelo nome de praça dos Leões), começou por ser a Academia Polytechnica do Porto, e teve a sua origem, curiosamente, numa aula de Náutica, em 1762.
Os negociantes do Porto, naquela época, sabendo que a navegação, saída ou a demandar o Douro, era alvo de constantes ameaças e assaltos por parte de toda a sorte de piratas e ladrões, propuseram a Rei o lançamento de um imposto especial para a construção e custeio de duas fragatas de guerra, suficientemente apetrechadas, com o fim de acompanhar as naus, nas suas viagens entre esta cidade e os portos do Brasil, naquela altura ainda colónia portuguesa. Para tal fim é que se criou uma incipiente aula de Náutica, que viria mais tarde a dar origem, em 1803, à Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto. Para o seu custeio foi estabelecido, por Alvará Régio, o imposto de um real em cada quartilho de vinho que se vendesse a retalho na cidade e distrito do Porto, imposto que durou até 1825. A direcção e administração da nova Academia competiam à junta da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, que se prestara a esse encargo sem outro tributo que não fosse ao serviço do Rei e do bem da Pátria.
As aulas de Náutica, começaram com sete disciplinas: Matemática, Desenho, Comércio, Agricultura, Francês, Inglês e Filosofia Racional.
Será interessante e curioso referir que a disciplina de Desenho teve a honra de ser professorada por três notáveis mestres: Francisco Vieira, o Vieira Portuense (1805), Domingos António Sequeira (1806) e Augusto Roquemont (1831).
Projectado em 1807, o edifício teria uma existência atribulada: construído com vários períodos de paragens, lentos avanços e até recuos, palco das invasões francesas, das lutas liberais e protagonista do Cerco do Porto, na altura servindo de hospital.
Em 13 de Janeiro de 1837, por decreto referendado por Manuel Passos, foi transformado em Academia Politécnica. Seria ainda Faculdade de Engenharia, de Economia e de Ciências. Sofreria dois grandes incêndios (1974 e 2008), dos quais recuperaria a sua majestosa e sóbria arquitectura, que hoje mantém, como Reitoria da Universidade do Porto.

(em cima, fotografia actual da Reitoria;
em baixo, fotografia da Academia Polytechnica, em 1901)

pesquisa e adaptação de tinta permanente, publicado às 09:12
opiniões, sugestões ou contactos para o: autor

Acerca de mim

A minha fotografia
Nome: tinta permanente

canho, apólida, nemetano, retratador, golipão, estupofóbico, nervino, exúbere, vilão, manés, alóctone, curumim, escarolado, querendão, rimador, tartufo, pirrónico, andarilho, filógino, falto, probo, cônscio, morigerado, achegado, revel, pegado, lisproso, gosma.

Ver o meu perfil completo

 

 

 

 

 escreva na caixa a palavra que pretende pesquisar em Coisas do Arco-da-Velha
clique ENTER

 



 

coisas recentes

  • Barão de Forrester
  • Reitoria da Universidade do Porto
  • varão, varela, ou...
  • as voltas do vinho
  • Amor de Perdição
  • a Justiça(mas com 400 anos...)
  • José Malhoa
  • o Arco do Cego
  • Leis sobre a crendice popular - II(dois exemplos d...
  • Leis sobre a crendice popular - I(dois exemplos do...
       sonoridades portuguesas

Pauliteiros do Douro
Rui de Mascarenhas



coisas antigas

  • Novembro 2006
  • Janeiro 2007
  • Fevereiro 2007
  • Março 2007
  • Abril 2007
  • Maio 2007
  • Junho 2007
  • Julho 2007
  • Agosto 2007
  • Setembro 2007
  • Outubro 2007
  • Novembro 2007
  • Dezembro 2007
  • Janeiro 2008
  • Fevereiro 2008
  • Março 2008
  • Abril 2008
  • Maio 2008
  • Junho 2008
  • Julho 2008
  • Agosto 2008
  • Setembro 2008
  • Outubro 2008
  • Novembro 2008
  • Dezembro 2008
  • Janeiro 2009
  • Fevereiro 2009
  • Março 2009
  • Abril 2009
  • Maio 2009
  • Junho 2009
  • Julho 2009
  • Agosto 2009
  • Setembro 2009
  • Outubro 2009
  • Novembro 2009
  • Dezembro 2009
  • Janeiro 2010
  • Fevereiro 2010
  • Março 2010
  • Abril 2010
  • Maio 2010
  • Junho 2010
  • Julho 2010
  • Agosto 2010
  • Setembro 2010
  • Outubro 2010
  • Novembro 2010
  • Dezembro 2010
  • Janeiro 2011
  • Fevereiro 2011
  • Março 2011
  • Abril 2011
  • Maio 2011
  • Junho 2011
  • Julho 2011
  • Agosto 2011
  • Setembro 2011
  • Outubro 2011
  • Novembro 2011
  • Dezembro 2011
  • Janeiro 2012
  • Fevereiro 2012
  • Março 2012
  • Abril 2012
  • Maio 2012

 


 


2006© copyright TINTA PERMANENTE
www.tintapermanente.com
all rights reserved

contador